O Rinoceronte é a nova criação do Teatro da Garagem, estreia esta quinta

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Há peças que regressam.

E há peças que regressam a nós como um espelho que, subitamente, decide não colaborar.

Nesta nova criação, o Teatro da Garagem debruça-se sobre um dos maiores clássicos do teatro do absurdo para recuperar uma inquietação que julgávamos histórica e descobri-la perigosamente actual.

Em palco, Dai Ida, Pedro Lacerda, Rita Loureiro e Rui Maria Pêgo sustentam, com o corpo e a voz, esta fábula inquietante sobre a transformação colectiva e a erosão silenciosa do pensamento crítico. Quatro presenças que resistem à metamorfose enquanto o palco à sua volta cede.

Numa cidade banal, as pessoas começam a transformar-se em rinocerontes. Um a um. Depois quase todos.

A metamorfose deixa de ser excepção e instala-se como norma.

É o elenco que habita esse limiar como figuras que ainda reconhecemos como humanas e, por isso, carregam dúvida, hesitação, cumplicidade, covardia. O que os torna inquietantes não é o que se transforma. É o que resiste e como.

Nesta reinterpretação, a encenação de Carlos J. Pessoa constrói um espaço instável, onde a transformação deixa de ser metáfora distante para se tornar processo visível. Já a dramaturgia de Cláudia Madeira, afina o texto de Ionesco com as vibrações do presente, sublinhando a fluidez das identidades, a fragilidade das convicções e a velocidade com que o que damos por adquirido pode ser perdido.

Rita Loureiro traz ao palco uma carreira construída nos maiores teatros portugueses e no cinema de autor, com uma fisicalidade que distingue interpretar de habitar. Pedro Lacerda, figura central da cena contemporânea, percorreu décadas de teatro de linguagem com o rigor de quem sabe que cada gesto é uma decisão política. Rui Maria Pêgo, formado na Bristol Old Vic Theatre School e na Royal Academy of Dramatic Arts, traz uma precisão técnica que aqui serve a ambiguidade, não a certeza. Dai Ida, artista brasileira radicada em Lisboa, acrescenta uma presença que transita entre performance e palavra, fazendo do corpo território de resistência.

Juntos constroem um campo de forças onde a pergunta central da peça se torna inevitável: como permanecer humano num tempo que se habitua à desumanização?

Se Ionesco escreveu sob a sombra do totalitarismo, esta encenação interroga a des-democracia, esse território confortável onde o consenso substitui o debate e a unanimidade dispensa pensamento.

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