Tratar a saúde intestinal é um tema frequentemente ‘empurrado com a barriga’. Seja por embaraço, por falta de tempo ou por se assumir que ter desconforto é ‘normal’. Sintomas recorrentes não se limitam ao momento em que surgem e acabam por condicionar escolhas, reduzir a sensação de controlo e desgastar a saúde (física e emocional) e a qualidade de vida de quem sente o mal-estar dia após dia.
Um estudo recente sobre saúde intestinal dos portugueses, do Projeto Saúdes da Médis, ajuda a perceber a dimensão desta realidade: quase três milhões de portugueses dizem sentir desconforto intestinal persistente e, entre quem convive com estes sintomas, a maioria continua sem resposta clara: 75% não tem diagnóstico médico. Existem, no entanto, algumas estratégias para aliviar este mal-estar frequente, com tendência a ser normalizado, e que nem sempre recebe o enquadramento clínico necessário:
- Hidratação consistente ao longo do dia: beber pouca água ao longo do dia pode agravar os sintomas, sobretudo obstipação. Segundo a Direção-Geral de Saúde, o adulto deve beber entre um litro e meio a dois litros de água por dia.
- Refeições mais calmas e regulares: comer mais devagar, mastigar melhor e evitar longos períodos sem comer. Comer com calma reduz o stress e evita a ingestão excessiva de ar, o que previne o desconforto abdominal e gases; mastigar melhor os alimentos ajuda a reduzir a má digestão, a azia e o refluxo; por fim, longos períodos sem comer pode promover um mal-estar geral.
- Mais fibra, mas de forma gradual: reforçar legumes, fruta, leguminosas e cereais integrais, evitando aumentos bruscos que podem intensificar inchaço. 25g/dia de fibra é a quantidade diária recomendada para um adulto pela Direção-Geral de Saúde.
- Movimento diário: caminhadas e exercício moderado (ioga, natação ou ciclismo) ajudam a regular o trânsito intestinal e a prevenir prisão de ventre: 30 minutos de atividade física moderada por dia podem ajudar a diminuir o inchaço abdominal e a eliminar gases, bem como a melhorar a microbiota, pois o exercício físico regular aumenta a diversidade de bactérias benéficas no intestino.
- Reduzir alimentos que potenciam a inflamação, como os ultraprocessados, os cereais muito refinados, as bebidas alcoólicas e açucaradas, alimentos fritos ou ricos em gordura animal e alimentos açucarados: consumir alimentos ultraprocessados, ou outros menos benéficos, deverá ser apenas uma exceção e nunca a regra.
- Evitar exclusões prolongadas sem orientação: retirar componentes como o glúten ou a lactose, por alta recreação, podem empobrecer a dieta e dificultar a identificação da causa real do desconforto ou doença. Nestes casos, é aconselhado consultar um médico ou nutricionista para que possam guiar os processos de exclusão de alimentos ou componentes.
- Conhecer a Escala de Bristol: esta ferramenta ajuda a caracterizar e interpretar o trânsito intestinal, classificando as fezes em sete tipos com base na sua forma e consistência.
Quando o desconforto é persistente e interfere com a rotina, é essencial procurar avaliação clínica, sobretudo se surgirem sintomas alarmantes, como sangue nas fezes, perda de peso inexplicada, febre, dor intensa, diarreia prolongada, obstipação marcada ou uma alteração recente e significativa do padrão intestinal. No entanto, mais do que etiquetar sintomas, uma avaliação integrada ajuda a excluir problemas que exigem tratamento específico e, nos casos mais comuns, a desenhar um plano realista de gestão, ajustado ao dia a dia de cada pessoa.
A mensagem essencial é simples: desconforto intestinal repetido não tem de ser normalizado, nem resolvido apenas com soluções pontuais. Com informação e acompanhamento adequado, é possível reduzir episódios, ganhar previsibilidade e recuperar qualidade de vida.
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