IndieLisboa 2023 – Programação Completa

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A vigésima edição do IndieLisboa decorre entre 27 de Abril e 7 de Maio

Já falta pouco para a vigésima edição do IndieLisboa! Regressam os parceiros de sempre, descobrem-se novos cúmplices, como o Cinema Fernando Lopes e a Piscina da Penha de França, para a sessão de cinema dentro de água, ou propõem-se novas experiências como o IndieDate, mesmo a tempo de celebrarmos juntos os 20 anos do festival, naquela que será a edição com mais filmes: 314!

Nas novidades, começamos pela Competição Nacional, que regressa com 6 longas metragens, 3 médias metragens e 16 curtas metragens, com vários regressos ao festival e um punhado de estreantes. Em Astrakan 79, de Catarina Mourão, um homem de meia idade recorda a sua estadia de um ano e meio na União Soviética, em 1979, enviado pelos seus pais, militantes do Partido Comunista.  Pelo caminho tornou-se clandestino e deixou para trás uma grande paixão, os estudos e os ideais.  Depois de ter vencido o prémio Melhor Longa-Metragem Portuguesa no IndieLisboa 2021 com No Táxi do Jack, Susana Nobre regressa ao festival com Cidade Rabat, uma comédia melancólica sobre Helena, que aos quarenta anos se sente presa entre as responsabilidades familiares e a burocracia do seu trabalho enquanto produtora de cinema. Quando a sua mãe morre, Helena apercebe-se tristemente que se encontra a meio caminho entre o começo e o fim da vida, e isso desperta em si uma nova juventude. Índia, a estreia de Telmo Churro nas longas-metragens, foca-se na relação entre três gerações de homens (Tiago e o seu pai, Raul, e o seu filho, Manuel) e Karen, uma melancólica turista brasileira que escreve cartas para o seu falecido marido. Juntos seguem numa jornada entre sonhos, glórias perdidas e catástrofes, ao encontro de um desgraçado herói desaparecido há muitos séculos numa ilha do Atlântico Sul. O mito de que ‘Portugal não é um país racista’ é explorado por Marta Pessoa em Rosinha e Outros Bichos do Mato. Em 1934, uma exposição colonial trouxe aos jardins do Palácio de Cristal, no Porto, a recriação das aldeias indígenas e “exemplares” dos povos que as habitavam. Rosinha veio com ela da Guiné e está presente em vários filmes e imagens oficiais. Mas quem é Rosinha? Ao longo deste documentário, a história da propaganda fascista portuguesa surge como um tenebroso espelho para onde nos custa olhar. A Primeira Idade, de Alexander David, passa-se numa ilha isolada, onde vive uma comunidade autónoma de crianças. Guiadas pelos mais velhos entre eles, funcionam como uma comunidade agrária com regras e crenças rigorosas. Os adultos são banidos para os bosques circundantes, e todos os anos, é feita uma cerimónia para o membro mais velho da aldeia – um ritual que acreditam conferir a juventude eterna ao escolhido. A última longa da competição nacional é o díptico Mal Viver | Viver Mal, de João Canijo. Acabado de chegar do brilharete da Berlinale, Mal Viver acompanha a família que gere um hotel decadente na costa norte de Portugal. A relação entre estas mulheres só piora com a chegada da neta, que traz ao de cima anos de ressentimentos em lume brando. Viver Mal foca-se nos hóspedes do hotel ao longo de um fim de semana – responsabilidades, traições e enganos. Três famílias vivem melodramas sob a lupa de Canijo.

Destacamos ainda Dildotectónica de Tomás Paula Marques, sobre a criação de uma colecção de dildos de cerâmica que não seja fálica. André Gil Mata regressa ao Indie com Pátio do Carrasco, adaptação do conto de Franz Kafka Um Fratricida, sobre dois irmãos e os limites do amor fraterno. Em Carmen Troubles, Vasco Araújo desconstrói o estereótipo da mulher cigana representada na ópera Carmen, de George Bizet. Os gémeos Afonso e Bernardo Rapazote estreiam mundialmente A Febre de Maria João, drama passado no século XIX, vivido num único espaço de representação, cheio de segredos que o filme desvenda habilmente.

Nas Sessões Especiais, onde se incluem os filmes de abertura e encerramento, destaque para Orlando, Ma Biographie Politique, de Paul B. Preciado, filme-sensação do último Festival de Berlim. A partir do clássico de Virginia Woolf, o escritor tornado realizador convocou um casting com 25 pessoas diferentes, todas trans e não binárias, dos 8 aos 70 anos, para interpretarem Orlando, enquanto narram as suas próprias vidas e ao mesmo tempo questionam: “Quem são os Orlandos contemporâneos?”. Impossível não mencionar Primeira Obra, de Rui Simões, veterano documentarista que conseguiu apoios para uma estreia na ficção após 40 anos de tentativas. Rui Simões, realizador e produtor, tem um longo percurso no documentário, em vários formatos, onde se destacam Deus, Pátria, Autoridade (1975), Bom povo português (1980) ou Ruas da amargura (2008). Ainda nas sessões especiais, 1976, a estreia de Manuela Martelli na realização é um óptimo exemplo de film noir chileno, que tenta desmontar as sequelas da ditadura fascista. O filme explora de forma tensa como a classe média chilena lidou com a tomada do poder de Pinochet através da perspectiva duma mulher.

Nas curtas, Où en êtes-vous, Tsai Ming-Liang? é uma encomenda do Centre Pompidou ao realizador de Taiwan, que se junta à lista de ilustres autores convidados anteriormente, como Teresa Villaverde, João Pedro Rodrigues ou Jean-Marie Straub.

Regressa também o Novíssimos, a secção competitiva composta por um conjunto de filmes de jovens cineastas que estão a dar os seus primeiros passos no cinema. Este ano são 18 curtas-metragens, algumas realizadas em contexto escolar, outras feitas independentemente de qualquer apoio. Este ano a secção tem um novo prémio MUTIM – Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento, numa programação com muitos filmes íntimos e pessoais, como Memórias de Pau-Preto e Marfim, de Inês Costa, que mistura a animação e arquivos pessoais para trabalhar o passado colonial português, ou Os Tempos Conturbados, focado nos primeiros momentos de independência angolana. A procura de memórias familiares num envelope de fotografias antigas é o ponto de partida de Na Minha Vida, de José Lobo Antunes. Mátria, de Catarina Gonçalves, é uma homenagem a Natália Correia, num filme onde realidade e ficção se cosem com a sua poesia.

O programa 5L deste ano chama-se Cinema-Cidade e resulta da já habitual parceria entre o IndieLisboa e o Lisboa 5L, o festival de literatura e língua portuguesa promovido pela Câmara Municipal de Lisboa. Dedicado este ano ao tema Centro e Fugas, o Lisboa 5L celebra a faceta multicultural da vida da cidade através de um programa que põe em evidência ligações e rupturas entre centro urbano e periferia. Com o ciclo Cinema-Cidade, faz-se um convite ao público para que acompanhe o trabalho de cineastas que, em variados registos, formatos e linguagens, se avizinharam tematicamente da orla suburbana de diferentes cidades. Estes são filmes que trabalham o urbanismo social e o desenraizamento, a tensão e a cumplicidade, a violência e a integração, a aculturação e a afirmação identitária de quem se naturalizou nas margens da cidade e daí partiu para se instalar no centro do multiculturalismo. No total são 3 longas e 4 curtas – O Fim do Mundo, de Basil da Cunha, vencedor do Prémio de Melhor Longa-metragem Portuguesa no festival IndieLisboa de 2020; La Haine, clássico do cinema francês sobre abusos policiais nos bairros pobres de Paris; Outros Bairros,  um documentário sobre os adolescentes de origem africana nascidos em Portugal. Nas curtas, selecionamos dois documentários – No’i, de Alibe Magrez, e Villeneuve, de Agathe Poche – e uma animação, Fest, de Nikita Diakur. A única ficção é Mistida, de Falcão Nhaga, que estreou na edição de 2022 do IndieLisboa.

Sete festivais europeus de sete países diferentes uniram forças para criar o Smart7, com o objectivo de fomentar a circulação transnacional de títulos europeus. A rede é composta pelos seguintes festivais de cinema: Festival Internacional de Cinema New Horizons (Polónia), IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema (Portugal), Thessaloniki International Film Festival (Grécia), Festival Internacional de Cinema da Transilvânia (Roménia), Festival Internacional de Cinema FILMADRID (Espanha), Festival Internacional de Cinema de Reykjavik (Islândia) e Festival Internacional de Cinema de Vilnius Kino Pavasaris (Lituânia). Todos eles incorporaram o programa desenvolvido e trabalharam em estreita colaboração, respeitando a sua própria identidade e critérios de programação. A lista de filmes em competição é a seguinte: Black Stone, de Spiros Jacovides (Grécia); Bread and Salt, de Damian Kocur;  Índia, de Telmo Churro (Portugal); Mammalia, de Sebastian Mihailescu (Roménia); Mannvirki, de Gústav Geir Bollason (Islândia); Remember to Blink, de Austėja Urbaitė (Lituânia) e Secaderos de Rocío Mesa (Espanha). No Thessaloniki International Film Festival, o último festival do ano, o prémio da competição é atribuído por um júri constituído por um estudante de cada país dos festivais que compõem o Smart7.

Dois acrescentos de peso no IndieMusic – o ciclo dedicado aos 50 anos do hip-hop, com curadoria de Sam the Kid, e Little Richard: I Am Everything. Para o ciclo, Sam the Kid, cinéfilo convicto, escolheu Scratch, Beats, Rhymes and Life – The Travels of A Tribe Called Quest e CB4 como filmes representativos da cultura hip-hop. Little Richard: I Am Everything recupera as origens queer e negras do rock n’ roll através do incrível legado Little Richard, ícone complexo recém-falecido.

O IndieLisboa terá lugar entre o Cinema São Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o Cinema Ideal, o Cinema Fernando Lopes e a piscina da Penha de França entre os dias 27 de abril e 7 de maio.

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