Antes de partirmos para o verão, colocamos os sentidos apurados para a banda sonora do outono (e que encaixa tão bem neste julho falso): há mais novidades Mucho Flow 2024 – que acontece de 31 de Outubro a 2 de Novembro, no CIAJG, Teatro Jordão, Centro Cultural Vila Flor e Teatro São Mamede, em Guimarães – para conhecer e ouvir.
Das estreias em Portugal, parte essencial da vida Mucho Flow, teremos o hip hop mutante dos Angry Blackmen, a pop diluída no tempo de Florence Sinclair, o híbrido eletrónica-erudita em canção de Bianca Scout e o ambient de ensemble de câmara de Mabe Fratti juntam-se ao regresso inevitável de DJ Lynce e à eletrónica de sintetizador de Rita Silva; na pista de dança, estará a aeróbica sónica e de baixos protuberantes de Crystallmess a ocupar os fechos de noites vimaranenses.
Esta nova leva de artistas junta-se aos já anunciados Alex Wilcox, Anastasia Coope, Clarissa Connelly, Gabber Eleganza, Hypnosis Therapy, Nadah El Shazly, Papaya, Snow Strippers, Still House Plants e UNIVERSITY.
Angry Blackmen
O nome Angry Blackmen (ABM) é auto-explicativo, apesar de os próprios o definirem como um truque de retórica. O som encapsula a ideia que a dita América branca espera de um certo tom de pele, uma tensão constante, embrulhada em frequências graves e protuberantes e batidas quebradas, a piscar o olho às cadências hip hop de andamento mais elevado, estrategicamente a desviar-se do trap sem se a aproximar do grime, mas é no conceito que a dupla de Chicago eleva a parada. No seu rap entra uma consciência informada por condição, fazendo uso de arquétipos para contar histórias que ultrapassam esses limites. Tem sido assim desde que se fizeram à estrada em 2017, e não é menos verdade com o novo álbum, The Legend of ABM, que trazem em estreia nacional até ao Mucho Flow. Esperem noise, esperem o irascível, esperem o inesperado.
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Bianca Scout
Bianca Scout move-se entre géneros e ocupa espaços inusitados, mas fá-lo com uma familiaridade reconfortante, criando novos contextos sonoros onde a eletrónica de tendências mais experimentais, a pop e a música de câmara coabitam com expressões de dança contemporânea. A sua exploração, que começou há quase uma década em Londres, encontrou em Pattern Damage, o seu último álbum recentemente editado, a sua forma mais solene e embevecedora, com peças de melodias de aparente fragilidade, mas que rapidamente passam a assolar todo e qualquer canto da mente, preenchendo-os com tristeza e encanto.
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Crystallmess
Um dos nomes em crescendo do clubbing, Christele Oyiri, mais conhecida por Crystallmess, vem preencher a lacuna que o Mucho Flow só soube que tinha quando se cruzou com os seus sets. Neles cabem um milhão de revoluções, cadências e estéticas, que vão do house ao drum n’ bass, passando por tendências de expressão africana contemporânea, e onde a tendência prevalente é uma certa aura soul em choque com a ideia techno, afro-futurista original, permanente, perfeita para projetar espíritos para pistas de dança tão espirituais como físicas. Enquanto houver pernas, Crystallmess sustenta-nos a alma; quando as não houver, ela energiza-nos o corpo.
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DJ Lynce
Não há lenda de Mucho Flow que reze sem se contar as aventuras de Lynce, o DJ que rebenta as pistas de dança e as deixa num estado de difícil utilização para quem se lhe seguir. É, aliás, essa a razão que nos levou a mantê-lo no estatuto de DJ que encerra o festival — não vale a pena fazer a vida difícil a ninguém quando vimos todos para curtir. Neste 10.º Mucho, a história não será muito diferente, mas a lenda de Lynce rezará por via de outras armas: ao invés de se munir dos pratos e dos discos, Pedro Santos irá do Porto armado com sintetizadores para transmitir um set de electro com qualidade suficiente para chegar aos mundos subaquáticos do techno futurista. Pode ser que desta vez a pista permita a que se siga alguém. Pelo sim, pelo não, o calçado que se pede é para todo-terreno.
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Florence Sinclair
Embrulhado num turbilhão de nostalgia e projeção futurista, Florence Sinclair habita as coordenadas de espaço tempo emergentes da confluência entre as waves todas do início da década de 2010 com o indelével estabelecimento das sonoridades negras como o padrão da pop. O resultado, meio inexplicável, mas sempre reconhecível, desemboca numa música tão fluída quanto confrangedora, liberta na sua forma de estar contida; uma pop que usurpa a canção para fazer melodias orelhudas e não se socorrer de fórmulas óbvias. A experimentação, aqui, não se queda pela mera estética, dedica-se a explorar a fórmula e as suas possibilidades. Mais uma estreia a expandir o universo observável do Mucho Flow.
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Mabe Fratti
Depois de ganhar espaço num lugar relativamente comum aos seus pares da música erudita, a compositora, violoncelista, produtora e vocalista Mabe Pratti começou a abrir caminho para uma sonoridade de cunho muito próprio, sendo a epítome disso mesmo o mais recente álbum Sentir Que No Sabes. Ao longo da sua carreira procurou explorar as possibilidades do violoncelo como principal propulsor de sonoridades ambient e clássicas, num registo ambient a aproximar-se da pop, tendo recentemente rompido com essa direção. A compositora da América Central vive a sua designação na máxima acepção, criando peças para contextos maiores do que apenas o seu instrumento, onde a pop abraça tanto a clássica, como expressões mais próximas do rock, do ambient, da chansons, com momentos melódicos de beleza inquestionável, onde violoncelo, piano, sopros e bateria produzem uma banda sonora de vida.
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Rita Silva
Um dos nomes em maior ascensão na cena eletrónica portuguesa, Rita Silva não se fica por manipulações simples de som e eleva a sua abordagem à exploração do instrumento — ou não fosse a sua música indelevelmente marcada pelo uso de sintetizadores modulares, técnicas de composição generativa e uma abordagem reativa ao caminho que as frequências geradas abrem para si. Em cada peça sua, uma linha melódica é muito mais do que uma direção, mas um logaritmo de possibilidades a explorar, que se desdobram em novos momentos, texturas e harmonias. Uma estreia no Mucho Flow por demais adiada, mas por ora resolvida.
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